A psicologia de The Boys: trauma, poder e falsa salvação — foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

A psicologia de The Boys: trauma, poder e falsa salvação

The Boys desconstruiu o mito do super-herói. O que a série revela sobre a relação entre trauma, poder sem controle e a fantasia de salvação, e o que isso tem a ver com a clínica?

The Boys, série da Amazon baseada nos quadrinhos homônimos, começa de onde o gênero de super-herói normalmente termina: com a pergunta sobre o que acontece quando pessoas com poder extraordinário e sem controle efetivo são colocadas no mundo real. A resposta da série é incômoda: elas se tornam perigosas, não por serem maus por natureza, mas por serem traumatizadas, narcisistas, corporativamente gerenciadas e completamente desamparadas para lidar com o que carregam. É ficção científica. É também um caso clínico coletivo.

Poder sem continência

A premissa central de The Boys é que super-poderes, sem estrutura psíquica para sustentá-los, produzem dano. Homelander, o Superman da série, é apresentado como herói americano perfeito: forte, justo, protetor. Nos bastidores, é um homem profundamente perturbado: criado em laboratório sem figuras de apego, submetido a experimentos desde o nascimento, adulado e controlado por uma corporação que o usou sem jamais cuidá-lo.

O resultado não é vilania no sentido tradicional, é algo mais clinicamente preciso: uma estrutura de funcionamento borderline-narcisista em que o self grandioso é construído sobre um núcleo de abandono absoluto. Homelander não sabe o que é ser cuidado. Sabe apenas o que é ser temido e adorado. Quando a adoração vacila, o terror não é estratégico, é existencial. A violência é regulação emocional.

Isso não é um desvio da normalidade humana. É uma das apresentações mais comuns do trauma de apego severo em pessoas que, por circunstâncias de vida, acabam acumulando poder, institucional, econômico, político, ou simplesmente posicional. O trauma não os impediu de ascender. Em alguns casos, os mesmos traços que o trauma produziu, hipervigilância, controle excessivo, necessidade de dominância, foram combustível para a ascensão.

A fantasia do herói salvador

The Boys é, entre outras coisas, uma crítica sistemática à fantasia de salvação individual. O mundo da série está em crise, e a resposta que a cultura oferece é sempre a mesma: vai aparecer um herói que vai resolver. A Vought International, corporação que gerencia os super-heróis como marcas, entende perfeitamente essa demanda e a explora.

O problema não é apenas que os heróis são corruptos. É estrutural: a fantasia de que uma figura excepcional pode resolver problemas que são sistêmicos é ela mesma parte do problema. Enquanto o público espera pelo herói, a corporação opera. Enquanto a esperança está depositada na pessoa certa no lugar certo, as condições que produzem o dano continuam intocadas.

Na clínica, essa estrutura aparece com frequência. O paciente que acredita que encontrar a psicóloga certo, o que finalmente vai “me entender”, “me curar”, “fazer o que os outros não fizeram”, vai resolver o que décadas de sofrimento não resolveram. Não porque a terapia não funcione, mas porque a crença num salvador externo frequentemente é defesa contra o trabalho interno que a mudança real exige.

A psicóloga que aceita o papel de salvador, que alimenta a idealização em vez de trabalhá-la, está repetindo o ciclo. E no momento em que inevitavelmente decepcionar o paciente (e vai decepcionar, porque é humano), o custo para ambos é alto.

Trauma como campo de força

Uma das contribuições mais ricas de The Boys para um olhar psicológico é mostrar como o trauma não fica contido no sujeito que o viveu. Ele se irradia. Contamina relações. Reorganiza estruturas de poder ao redor do sujeito traumatizado.

Homelander traumatiza todos que dele dependem. Aqueles que o rodeiam desenvolvem estratégias de sobrevivência, complacência, achatamento emocional, lealdade forçada, que são, elas mesmas, respostas traumáticas secundárias. O ambiente ao redor de uma pessoa com trauma grave e poder significativo frequentemente desenvolve uma ecologia de dano.

Isso tem implicações clínicas diretas. Quando um paciente descreve uma família, uma empresa ou uma instituição que parece funcionar de formas inexplicavelmente disfuncionais, a pergunta sobre quem está no centro desse sistema, e o que essa pessoa carrega, frequentemente é iluminadora. O trauma não é apenas individual. É relacional e sistêmico.

O que acontece com quem não tem superpoder

A série conta também a história de personagens sem poderes. Billy Butcher e o grupo que luta contra os Supes, e esses personagens são igualmente traumatizados. A diferença é que seu trauma não vem com voo supersônico e visão de calor. Vem com raiva, com desejo de vingança, com a dificuldade de distinguir justiça de violência.

The Boys não oferece um lado “bom” no sentido simples. Oferece, em vez disso, personagens cujo sofrimento é compreensível, cujas respostas ao sofrimento são reconhecíveis, e cujas escolhas são moralmente complexas precisamente porque o trauma não produz santos, produz seres humanos tentando sobreviver com os recursos que têm.

Para a clínica, essa é uma perspectiva importante: o paciente que fez coisas difíceis de justificar, que causou dano a outros, que não se encaixa no papel de vítima pura, esse paciente também precisa de cuidado. A compaixão clínica não é condicional à irrepreensibilidade do sujeito que sofre.

O limite do herói e o início do trabalho coletivo

The Boys resolve seus conflitos, quando resolve, não pela chegada do herói certo, mas por coalizões improváveis, por denúncias públicas, por mudanças institucionais conquistadas com custo alto. A série sugere, de forma nada sutil, que os problemas sistêmicos exigem respostas sistêmicas.

A clínica individual é poderosa. Mas ela tem limites que são também limites do que o individual pode fazer diante do estrutural. O sofrimento que tem causas sociais, econômicas e históricas não se resolve apenas no consultório, por mais competente que seja quem escuta. A psicologia que reconhece isso não é menos clínica. É mais honesta.

A armadura que os heróis usam

Uma cena que qualquer psicóloga reconheceria: Homelander, sozinho no espelho, praticando o sorriso perfeito. O herói mais poderoso do mundo ensaiando a humanidade que nunca aprendeu a ter.

A armadura não é literal nessa série, é a encenação de competência, de força, de controle. Que é o que muitos pacientes fazem muito bem, por muito tempo, antes de finalmente desabar num consultório. O trabalho começa quando a armadura pode ser posta de lado, pelo menos por cinquenta minutos, com alguém confiável do outro lado.

Sustentando a escuta do que é pesado

Atender clínica que envolve trauma, abuso de poder e violência sistêmica é trabalho que pesa. A supervisão, a auto-análise e o cuidado com a própria saúde mental são fundamentais para quem sustenta essa escuta.

Parte de cuidar bem dos pacientes é cuidar bem da própria prática. Isso inclui manter a gestão clínica organizada, os prontuários acessíveis e a rotina administrativa sem sobrecargas desnecessárias. A Corpora foi desenvolvida para que psicólogas brasileiras tenham o suporte de gestão que a prática exige, para que o espaço mental da profissional possa estar, de fato, disponível para o trabalho.

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