Abordagens psicológicas sem guerra de torcida, foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

Abordagens psicológicas sem guerra de torcida

A guerra entre abordagens psicológicas empobrece a clínica e a formação. Ser de uma abordagem não exige odiar as outras: exige conhecê-la bem o suficiente.

Existe uma dinâmica nas comunidades de psicologia que se parece mais com torcida organizada do que com debate científico.

Psicanalistas que descartam TCC como superficial. Comportamentalistas que descartam psicanálise como medievalismo sem evidência. Humanistas que descartam ambas como mecanicistas. E por aí vai.

O resultado não é rigor. É empobrecimento.

O que se perde na guerra de torcida

Cada abordagem psicológica foi desenvolvida para responder a perguntas específicas, em contextos históricos específicos, com limitações e contribuições específicas.

Psicanálise desenvolveu uma linguagem para falar do inconsciente, da repetição, da transferência, da resistência: fenômenos que qualquer clínica vai encontrar, mesmo que não use o vocabulário freudiano.

TCC desenvolveu metodologia para identificar e modificar padrões cognitivos e comportamentais com evidência empírica robusta, especialmente para condições específicas como fobia, TOC, depressão.

Gestalt desenvolveu uma teoria do contato, do campo e da awareness que muda como se pensa a relação terapêutica e o que é observado numa sessão.

Abordagem histórico-cultural trouxe o contexto social para dentro da clínica de forma que outras tradições frequentemente ignoram.

Quando a guerra de torcida domina, essas contribuições ficam inacessíveis para quem está do lado “errado”. A psicóloga psicanalista que descarta TCC não vai desenvolver habilidades de análise funcional que poderiam enriquecer seu trabalho. O comportamentalista que descarta psicanálise não vai ter vocabulário para o que a transferência produz na sessão.

O que “ser de uma abordagem” deveria significar

Ter uma abordagem de formação principal não é problema. É, na maioria dos casos, o caminho mais sensato.

Psicologia tem muitas teorias, muitos métodos, muitos recortes possíveis. Tentar dominar todos superficialmente produz uma prática eclética que não tem profundidade em nada. Ter uma abordagem de formação significa ter um sistema teórico coerente para entender o que acontece na clínica.

O problema não é ter uma abordagem. É achar que ter uma abordagem exige invalidar as outras.

Uma psicóloga que conhece bem a Gestalt pode reconhecer, sem ameaça, que a análise funcional do comportamento captura algo que a Gestalt não prioriza. Um psicanalista pode reconhecer que há evidência empírica para protocolos de exposição que não contradiz nada fundamental da teoria do inconsciente.

Caricatura como economia cognitiva

A guerra de torcida se sustenta em grande parte por caricaturas.

TCC reduzida a “preencher planilha de pensamentos automáticos”. Psicanálise reduzida a “deitar num divã e falar sobre a mãe por 20 anos”. Gestalt reduzida a “bater na almofada e gritar”.

Essas caricaturas permitem dispensar a abordagem rival sem precisar estudá-la. É muito mais econômico conhecer a versão ruim de algo e descartá-la do que conhecer a versão real e ter que fazer o trabalho de dialogar.

O custo é que a clínica fica mais estreita do que precisaria.

Rigor interno é a condição do pluralismo

Defender pluralismo não é defender que todas as abordagens são equivalentes ou que qualquer coisa funciona.

É defender que cada abordagem deve ser avaliada com rigor, internamente, nos seus próprios termos, e externamente, pelos resultados que produz, sem ser reduzida à sua versão mais fraca.

Isso exige mais estudo, não menos. Exige que a psicóloga conheça sua abordagem com profundidade suficiente para saber onde ela funciona, onde encontra limites e o que outras perspectivas podem oferecer que ela não oferece.

Um pluralismo que recusa rigor interno vira sincretismo: mistura de conceitos incompatíveis que não serve a nenhum dos sistemas que pretende integrar.

O que a formação costuma fazer errado

A maioria das graduações apresenta abordagens em paralelo sem criar condições para que o estudante se aprofunde em nenhuma. O resultado é um conhecimento superficial de várias tradições: suficiente para reconhecer nomes, insuficiente para trabalhar clinicamente com qualquer uma delas.

Depois, a pós-graduação e a supervisão tendem a institucionalizar a guerra de torcida: escolher uma abordagem significa, implicitamente, aprender a criticar as rivais.

O que raramente acontece na formação é o encontro sério com outra tradição: leitura dos textos primários, supervisão com profissional de outra abordagem, estudo honesto do que aquela perspectiva consegue ver que a própria não vê.

Ser de uma abordagem sem odiar as outras

Ser de uma abordagem não exige odiar as outras. Exige conhecê-la bem o suficiente para saber onde ela funciona.

E conhecer bem uma abordagem, realmente bem, quase sempre produz algum grau de humildade sobre seus limites. Porque quanto mais se aprofunda numa teoria, mais se percebe o que ela explica bem e o que ela não consegue alcançar.

Essa humildade não é fraqueza teórica. É o que distingue profissional de torcedor.

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