Raça e classe como estrutura, não tema lateral
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Psicologia

Raça e classe como estrutura, não tema lateral

A clínica que trata raça e classe como opcional está fazendo uma escolha. E essa escolha tem consequências para quem atende.

Há uma tendência na clínica de tratar raça e classe como temas que entram quando o paciente os traz.

Se ele não menciona, não está presente. Se não faz do racismo o motivo da consulta, a psicóloga pode operar como se a experiência racial fosse irrelevante para o processo. Se não fala de dinheiro, a classe não é dado clínico.

Essa abordagem tem um problema fundamental: ela confunde silêncio com ausência.

Raça e classe estão antes da primeira fala

O paciente que entra no consultório já chegou atravessado por sua posição social.

Quem tem acesso a psicóloga particular, em que bairro, em qual horário, com que facilidade. Quem pode faltar sem que a falta represente perda financeira significativa. Quem se sente “no lugar certo” num consultório com determinada estética, determinado vocabulário, determinado enquadramento.

Uma pessoa negra de periferia que chega a um consultório de classe média não trouxe raça e classe como tema. Ela chegou sendo essa pessoa, num espaço que foi construído por outras pessoas, para outras pessoas, com pressupostos culturais que podem ou não incluir a experiência que ela carrega.

Isso não precisa ser dito explicitamente para estar presente. Está na postura, na escolha das palavras, no que se sente à vontade para revelar, no quanto a experiência narrada precisa ser traduzida para “caber” no setting.

O que a clínica “universal” deixa de fora

A ideia de uma psicologia clínica universal, que atende a qualquer pessoa porque o sofrimento humano tem estrutura comum, tem mérito parcial.

Há algo de comum no sofrimento humano: perda, desejo, conflito, vergonha, medo, vínculo. Essas experiências têm presença em qualquer cultura.

O que a universalização corre o risco de apagar é a especificidade de como essas experiências são vividas por pessoas em posições diferentes. Perda tem estrutura comum e experiências radicalmente diferentes dependendo de quem perde o quê num mundo desigual. Vergonha tem estrutura comum e conteúdos específicos que dependem de qual corpo, qual história, qual marcador social está em jogo.

Uma clínica que se afirma universal sem examinar seus pressupostos não está sendo universal. Está sendo particular: chama de universal a perspectiva que já estava no centro.

Sofrimento que tem causa social não é só sofrimento individual

Uma mulher negra que descreve exaustão, ansiedade e sensação de não pertencer pode estar descrevendo resposta a racismo estrutural e cotidiano.

Isso não é descartável nem secundário ao processo clínico. É a causa do sofrimento.

A clínica que processa essa experiência como questão individual, “o que em você produz essa sensação de não pertencer?”, sem perguntar o que no mundo produz essa sensação para essa pessoa, está fazendo uma escolha interpretativa com consequências reais.

Não é que a pergunta intrapsíquica seja errada. É que ela sozinha pode patologizar o que é resposta adaptativa a uma condição real.

A psicóloga que ajuda uma paciente a “aceitar” seu lugar num sistema que a rejeita estruturalmente não está fazendo clínica neutra. Está fazendo clínica que serve à adaptação ao injusto.

Classe aparece em como se fala sobre si mesmo

Classe não é só dado econômico. É experiência incorporada.

A relação com autoridade, com o que se merece, com o que é possível pedir, com o quanto o próprio sofrimento é legítimo: tudo isso tem marcadores de classe que operam antes de qualquer reflexão consciente.

Uma pessoa de classe trabalhadora que chegou ao consultório pode sentir que não tem direito ao espaço, que o sofrimento dela não é “grave o suficiente” para psicologia, que pedir mais do que o necessário é abuso. Pode apresentar o próprio sofrimento de forma minimizada porque foi socializada a não se colocar em primeiro lugar.

Uma pessoa de classe alta pode esperar que o processo se adapte completamente a ela, pode ter dificuldade com o enquadramento da sessão como limite, pode usar recursos materiais para evitar o trabalho que o processo exige.

Nenhum desses padrões é destino. São tendências que a clínica pode trabalhar, mas só se as nomear.

Implicações práticas para a escuta

Incluir raça e classe na escuta não é aplicar checklist de marcadores sociais a cada sessão.

É manter uma pergunta de fundo: o que a experiência dessa pessoa em particular, nessa posição social particular, contribui para o que está sendo narrado?

Isso muda algumas coisas concretas:

  • Ao ouvir relato de tratamento diferencial, perguntar não só “como você se sentiu?” mas o que de fato aconteceu, porque às vezes o que aconteceu foi discriminação real;
  • Ao trabalhar autoestima e sentimento de inadequação, perguntar a que o sentimento responde; ele pode ser resposta precisa a mensagens reais recebidas por anos;
  • Ao construir objetivo terapêutico, perguntar se o objetivo é adaptação ao existente ou transformação da relação com a própria experiência;
  • Ao usar material teórico e cultural na sessão, perguntar se as referências fazem sentido para quem está à frente, ou se estão sendo importadas de um universo cultural que não é o da paciente.

A escolha que a clínica faz ao silenciar

Quando a clínica trata raça e classe como opcional, presentes só quando nomeados, ela faz uma escolha.

Escolhe um enquadramento que considera essas dimensões acessórias à experiência psíquica. Escolhe um modelo de sujeito que existe antes de sua posição social. Escolhe a ilusão de neutralidade em vez do reconhecimento de que toda clínica opera de algum lugar.

Essa escolha tem consequências para quem atende.

A psicóloga que não examina sua posição social e racial no encontro clínico não está livre dessas dimensões. Está operando nelas sem perceber.

E operando sem perceber é diferente de operar com consciência: não porque a consciência elimine o problema, mas porque ela permite que o problema seja pensado em vez de reproduzido.

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