Por que psicologia precisa falar de sexualidade sem moralismo — foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

Por que psicologia precisa falar de sexualidade sem moralismo

A psicologia ainda carrega heranças moralistas na abordagem da sexualidade. Entenda o que mudou, o que persiste e o que significa uma clínica afirmativa.

Durante décadas, a psicologia classificou homossexualidade como transtorno. Não por evidência. Por norma cultural revestida de linguagem clínica.

Isso não é história distante. A última edição do DSM a incluir homossexualidade como categoria diagnóstica saiu em 1973. Há profissionais em exercício hoje que se formaram quando essa classificação ainda era vigente.

Reconhecer essa herança não é gesto politicamente correto. É pré-requisito para praticar clínica honesta.

O que a patologização produziu

Quando a psicologia tratava orientação sexual como desvio a ser corrigido, ela não estava sendo neutra. Estava endossando uma norma e usando autoridade científica para fazê-lo.

O dano foi, e segue sendo, documentado. Vergonha internalizada. Dificuldade de construir identidade coerente. Processos terapêuticos que aprofundaram sofrimento em vez de aliviá-lo. Práticas de “conversão” que o próprio Conselho Federal de Psicologia proibiu em 1999 e que ainda persistem sob nomes diferentes.

A proibição formal não resolve o problema de psicóloga que trabalha com viés implícito sem reconhecê-lo. Que usa linguagem neutra mas conduz sessão a partir de pressuposto normativo. Que trata heterossexualidade como default e outras orientações como questão a ser trabalhada.

O que mudou no campo

A psicologia, como campo, avançou. Resoluções do CFP são claras: não cabe à psicóloga tratar orientação sexual ou identidade de gênero como condição a ser modificada. Abordagem afirmativa é o referencial ético.

O Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e a Classificação Internacional de Doenças foram revisados. O que antes era categoria diagnóstica tornou-se, em versões atuais, motivo de atenção apenas quando há sofrimento subjetivo, não pela característica em si.

Isso é progresso real. Mas progresso formal e mudança de prática não são a mesma coisa.

O que ainda persiste

Viés implícito não exige posição explícita. Ele opera nas perguntas que a psicóloga faz, ou não faz. No que ela pressupõe que precisa ser explicado. Na forma como reage, com mais ou menos naturalidade, quando o paciente fala de certa configuração afetiva.

Persiste também na dificuldade de falar de sexualidade com precisão. Muitas psicólogas receberam formação que tocava no tema de forma tangencial, quando tocava. Nem vocabulário, nem modelos de como abordar sexualidade com abertura clínica, sem transformar em tema pesado demais nem em conversa leviana.

E persiste no desconforto com temas que cruzam sexualidade com outras dimensões: religião, cultura, relações de poder, violência, deficiência, envelhecimento. Nesses cruzamentos, o moralismo velado costuma aparecer com mais força.

O que é uma clínica afirmativa de sexualidade

Clínica afirmativa não é concordar com tudo que o paciente faz ou sente na esfera sexual. Não é transformar a sessão em espaço de validação irrestrita.

É partir do pressuposto de que a experiência sexual do paciente, seja qual for, desde que não envolva dano a terceiros, não precisa ser justificada ou corrigida. Que a tarefa clínica não é avaliar a adequação da vida sexual do paciente, mas ajudá-lo a entender sua própria experiência.

É conseguir ouvir sem sinalizar, implicitamente, que certa orientação, prática ou desejo é estranha, inadequada ou preocupante. Que sexualidade pode ser discutida com a mesma naturalidade com que se discutem outros aspectos da vida.

Vergonha não precisa de julgamento explícito

Paciente não precisa de julgamento explícito para sentir vergonha na sessão. Pergunta que não é feita, pausa um segundo longa demais, tom diferente ao abordar o tema, esses sinais sutis são suficientes para confirmar que aquele assunto não é bem-vindo.

E quando o paciente entende que o assunto não é bem-vindo, ele para de trazê-lo. O processo continua, mas sem acesso a uma dimensão que frequentemente tem papel central no sofrimento que motivou a busca.

A sexualidade não precisa de julgamento clínico. Ela precisa de espaço para ser entendida sem vergonha.

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