Por que aplaudimos o mínimo ético? — foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

Por que aplaudimos o mínimo ético?

Quando um post dizendo 'mantenho sigilo e não diagnostico em festas' recebe milhares de curtidas, algo está errado com o parâmetro de referência da profissão.

Uma psicóloga posta nas redes: “Eu mantenho sigilo, não diagnostico pessoas em festas e não dou conselhos não solicitados.” Dezenas de colegas comentam: “Que profissional incrível.” “Precisamos de mais pessoas assim.” “Obrigada por existir.”

O problema não é o post. O problema é a resposta.

O fenômeno da inflação ética

O que está acontecendo quando o cumprimento de obrigações elementares da profissão gera admiração genuína? A resposta mais simples, e provavelmente mais correta, é que o nível de fundo está baixo o suficiente para que o mínimo se destaque.

Não é abstração. Basta observar o que circula nas redes como “conteúdo de psicóloga”: diagnósticos informais de figuras públicas, comentários sobre o estado mental de personagens políticos, interpretações psicanalíticas de comportamentos de desafetos, conteúdo claramente voltado a construção de audiência em vez de informação de saúde. Quando esse é o contexto, a psicóloga que simplesmente não faz nada disso parece estar fazendo algo extraordinário.

Mas ela está apenas fazendo o que foi acordado que todos fariam ao assinar o CRP.

O que o Código de Ética realmente estabelece

O Código de Ética Profissional do Psicólogo não é um conjunto de recomendações aspiracionais. É o piso da conduta profissional, aquilo abaixo do qual há infração passível de processo ético.

Manter o sigilo não é virtude. É obrigação. Não diagnosticar sem avaliação adequada não é sofisticação clínica. É proibição. A diferença importa: confundir piso com teto distorce o que a profissão pede de quem a exerce.

O que o Código estabelece não esgota o que significa ser boa clínica. Ele estabelece o mínimo para que o exercício seja considerado ético, não o máximo para que seja considerado excelente.

Por que isso importa além do simbólico

Quando o mínimo vira conquista, o compromisso ético real fica mais difícil de formular. Quem vai além do básico, que recusa casos fora de sua competência, que busca supervisão quando está no limite, que não usa o sofrimento do paciente como material para conteúdo, que mantém documentação rigorosa mesmo sem fiscalização, não tem linguagem para nomear o que faz diferente, porque a linguagem disponível já foi gasta aplaudindo quem simplesmente não viola o contrato básico.

Há também um efeito de autorização. Se manter o sigilo é extraordinário, deixa de parecer exigência universal. Passa a parecer opção de quem tem bom caráter. E o que é opção pode ser relativizado.

O que o compromisso ético real parece

Compromisso ético não é lista de coisas que você não faz. É uma postura ativa diante de situações que o Código não prevê explicitamente, porque a maioria das situações eticamente complexas não está no Código.

O que fazer quando um paciente revela algo que envolve terceiros identificáveis? Como manejar a transferência quando ela serve ao vínculo terapêutico mas também poderia servir à sua retenção? Como comunicar incerteza diagnóstica sem produzir ansiedade desnecessária? Quando o encaminhamento para outro profissional é proteção do paciente e quando é esquiva?

Nenhuma dessas perguntas tem resposta no artigo X do Código. Elas exigem raciocínio ético, a capacidade de pensar o que é certo em situação específica, não apenas verificar se há infração prevista.

A profissão e seu espelho

O aplauso ao mínimo não é culpa das psicólogas que o aplaudem. É sintoma de um estado da profissão. Quando a violação é suficientemente comum, o cumprimento vira destaque.

A questão prática é: o que fazer com esse diagnóstico?

Começar pelo próprio parâmetro. O referencial não deve ser “estou acima da média do que vejo nas redes”, esse é um parâmetro que cai junto quando a média cai. O referencial é o que o trabalho clínico, levado a sério, pede. Documentação rigorosa. Supervisão. Formação continuada. Recusa de casos fora da competência. Transparência com o paciente sobre o que você pode e não pode oferecer.

Isso não gera post viral. Mas é o trabalho.

Documentação como prática ética concreta

Uma das dimensões menos glamourosas do compromisso ético é a documentação. Prontuário atualizado, anamnese completa, registro de evolução, não para cumprir burocracia, mas porque o paciente merece que o profissional que o atende tenha memória do atendimento.

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