Mulheres que mudaram a psicologia — foto ilustrativa (Pexels)
Foto: Pexels
Psicologia

Mulheres que mudaram a psicologia

A psicologia foi construída também por mulheres que enfrentaram barreiras acadêmicas e sociais. Conheça quem foram, o que fizeram e o que isso significa para a profissão hoje.

Mais de 85% dos psicólogos registrados no Brasil são mulheres. Quando se olha para os manuais de teoria, os nomes canônicos são quase todos masculinos.

Essa distância entre quem exerce a profissão e quem ocupa o cânone não é acidente. É produto de uma história de exclusão que começa muito antes da formação universitária.

Nise da Silveira: humanização antes de ser pauta

Nordestina, aluna de Carl Jung, Nise da Silveira dedicou décadas à humanização do tratamento de pessoas com transtornos psiquiátricos no Brasil quando o padrão era contenção, eletrochoque e isolamento.

No Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, ela criou a seção de terapia ocupacional e passou a trabalhar com arte como via de expressão e cuidado. As pinturas produzidas ali chegaram a Jung, que reconheceu nelas material psíquico rico e legítimo.

Nise nunca aceitou a lobotomia nem o eletrochoque. Sofreu consequências profissionais por isso. Continuou mesmo assim.

Silvia Lane: psicologia que olha para o Brasil

Silvia Lane foi uma das principais arquitetas da psicologia sócio-histórica brasileira, uma abordagem que recusou importar modelos europeus e norte-americanos sem tradução crítica para a realidade do país.

Sua obra construiu a base teórica para uma psicologia social comprometida com o contexto concreto das pessoas, não com abstrações universais que ignoram classe, raça e história. É referência obrigatória em qualquer formação séria em psicologia brasileira.

Cida Bento: racismo no trabalho como dado clínico

Psicóloga e ativista, Cida Bento fundou o CEERT, Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, e se tornou referência nacional na pesquisa sobre racismo institucional e desigualdades raciais e de gênero no ambiente de trabalho.

Seu trabalho demonstrou, com metodologia, o que muitas psicólogas observam na clínica sem sempre conseguir nomear: o racismo não é opinião individual, é estrutura, e deixa marcas psíquicas mensuráveis.

Melanie Klein: o brincar como linguagem

Melanie Klein transformou a psicanálise ao levar a sério o mundo interno de crianças pequenas, num período em que elas não eram vistas como sujeitos passíveis de análise.

Foi ela quem demonstrou que o brincar não é passatempo: é linguagem. A criança que brinca está comunicando, elaborando, processando. Essa contribuição atravessa até hoje a clínica infantil e está na base de como psicólogas trabalham com crianças em consultório.

Ana Bock: compromisso social não é opcional

“Compromisso social é estranhar, é inquietar-se com a realidade e não aceitar as coisas como estão.” A frase é de Ana Bock, uma das principais representantes da psicologia sócio-histórica e autora de livros que formaram gerações de psicólogas brasileiras.

Seu trabalho colocou a psicologia diante de uma pergunta que não tem resposta fácil: a quem serve a sua prática? Essa pergunta continua sendo o núcleo de qualquer formação crítica séria.

Marsha Linehan: criar a partir do próprio sofrimento

Marsha Linehan sofreu de transtorno de personalidade borderline na juventude, foi hospitalizada, e transformou essa experiência em pesquisa. Criou a Terapia Comportamental Dialética, a DBT, que se tornou um dos tratamentos com melhor evidência para o TPB e para comportamentos autolesivos.

Linehan só tornou público o próprio diagnóstico décadas depois, quando a evidência da DBT já estava consolidada. Fez ciência rigorosa a partir de onde poderia ter ficado parada.

Bluma Zeigarnik: a psicologia soviética que ficou no nome

Bluma Zeigarnik desenvolveu a patopsicologia experimental, uma disciplina que entende transtornos mentais a partir da personalidade do sujeito real, não apenas dos sintomas isolados. Seu nome ficou associado ao efeito Zeigarnik: a tendência de lembrar melhor de tarefas interrompidas do que de concluídas, fenômeno com implicações para memória, ruminação e clínica.

É uma daquelas contribuições que entrou no vocabulário técnico sem que o nome da pesquisadora acompanhasse.

Carolina Bori: a psicologia que o Brasil tem

Carolina Bori foi essencial para a regulamentação da psicologia como profissão no Brasil. Quando o Governo Federal criou o Registro Profissional em 1962, ela recebeu o Registro 001, reconhecimento de sua contribuição para a consolidação da profissão no país.

Além disso, foi uma das precursoras da análise do comportamento no Brasil, formou pesquisadores e contribuiu para a institucionalização acadêmica de uma área que até então existia de forma dispersa.

Judith Beck: sistematizar para que chegue a mais gente

Judith Beck, filha de Aaron Beck (criador da TCC), foi responsável pela sistematização, ensino e disseminação da terapia cognitivo-comportamental em contextos contemporâneos. Seu manual de TCC é um dos mais utilizados no mundo para formação clínica.

Há algo específico no trabalho de sistematizar o conhecimento de outra pessoa e torná-lo acessível: exige rigor, clareza e disposição para fazer um trabalho que dificilmente leva o mesmo prestígio de quem originou a teoria.

Anna Freud: psicanálise com quem não fala ainda

Anna Freud, filha de Sigmund, formou-se em pedagogia antes de se tornar psicanalista. Dedicou sua carreira ao trabalho com crianças, desenvolvendo técnicas que permitiam acessar o mundo psíquico de quem não tem ainda linguagem verbal suficiente para uma análise nos moldes adultos.

Suas contribuições para a psicanálise infantil abriram um território que até então era tratado como inacessível ou secundário.

Memória profissional como posicionamento ético

Não se trata de criar um cânone paralelo de heroínas alternativas. Trata-se de reconhecer que a narrativa padrão da psicologia omite contribuições que importam.

A psicologia não é neutra e não nasceu pronta. Ela também foi sustentada por mulheres que precisaram disputar espaço, linguagem e legitimidade, às vezes sem nem receber o crédito no fim.

Conhecer essas trajetórias não é exercício histórico. É posicionamento ético sobre o tipo de psicologia que se quer praticar.

Como a Corpora apoia quem exerce a profissão com cuidado

A história da psicologia foi feita também por pessoas que trabalharam sem estrutura adequada, sem reconhecimento, muitas vezes sem sequer acesso a documentação e arquivo. Isso mudou, e parte dessa mudança é tecnológica.

Na Corpora, prontuário digital, agenda online e financeiro integrado ficam num único sistema pensado para psicólogas. O histórico de cada paciente fica acessível, organizado e seguro. Menos tempo administrando, mais atenção para a clínica que essas mulheres ajudaram a construir.

O software preferido das psicólogas para gerir o consultório

Agenda online, prontuário eletrônico, cobrança automática, site de agendamento, financeiro e IA em um só lugar. Plano gratuito de verdade, sem prazo de expiração.

Começar Grátis

Leia também

Ver todos os artigos →
A fantástica fábrica de burnout, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

A fantástica fábrica de burnout

Burnout não nasce só de falta de autocuidado. Nasce de sistemas que transformam sobrevivência em performance e cobram da pessoa o preço da estrutura.

16 de mai. de 2026
A psicóloga cansada também precisa de cuidado, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

A psicóloga cansada também precisa de cuidado

Saber cuidar de sofrimento não torna ninguém imune ao próprio esgotamento. Burnout em profissionais de saúde mental tem sinais específicos e precisa de atenção direta.

16 de mai. de 2026
Abordagens psicológicas sem guerra de torcida, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

Abordagens psicológicas sem guerra de torcida

A guerra entre abordagens psicológicas empobrece a clínica e a formação. Ser de uma abordagem não exige odiar as outras: exige conhecê-la bem o suficiente.

16 de mai. de 2026
Às vezes é só capitalismo, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

Às vezes é só capitalismo: limites de individualizar sofrimento

Precarização, produtividade e comparação entram na clínica como queixa individual. Mas nem todo sofrimento nasce de crença disfuncional; parte dele tem endereço estrutural.

16 de mai. de 2026
Automatizar tarefas pequenas para preservar energia clínica, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

Automatizar tarefas pequenas para preservar energia clínica

Energia clínica é recurso limitado. O que pode ser automatizado deve ser, para que o que não pode receba atenção real.

16 de mai. de 2026
Behaviorismo sem caricatura: reforço não é prêmio simples, foto ilustrativa (Pexels) Psicologia
Psicologia

Behaviorismo sem caricatura: reforço não é prêmio simples

O behaviorismo foi reduzido a condicionamento de ratos. Mas reforço, na teoria comportamental, é um conceito muito mais sofisticado do que a caricatura sugere.

16 de mai. de 2026