Matrescence: o que acontece com a identidade quando alguém vira mãe
Matrescence é o nome para a transformação de identidade que acontece quando uma mulher se torna mãe. Entender esse processo muda a escuta clínica.
Existe uma expectativa silenciosa de que virar mãe deveria chegar como alegria pura. Que o momento do parto, ou da adoção, ou do diagnóstico positivo, seria o começo de uma versão mais plena, mais realizada, mais certa de si mesma. E quando isso não acontece, quando junto com o amor vem confusão, luto, cansaço e uma sensação estranha de não se reconhecer, a mulher carrega dois pesos: o da transformação em si, e a vergonha de estar sentindo algo que ninguém autorizou.
O conceito que deu nome ao que não tinha nome
Em 1973, a antropóloga médica Dana Raphael usou pela primeira vez o termo “matrescence” para descrever a transição para a maternidade. Raphael, a mesma pesquisadora que introduziu o termo “doula” no vocabulário moderno, queria nomear um processo que até então existia sem linguagem.
A ideia central é simples: assim como a adolescência descreve uma passagem de identidade intensa e muitas vezes turbulenta, a matrescence descreve o que acontece quando uma pessoa se torna mãe. Não é só um evento biológico. É uma reorganização profunda de quem se é, física, emocional, relacional, social.
O conceito ficou décadas sem muita circulação clínica. Foi só mais recentemente, sobretudo a partir do trabalho da psicóloga australiana Aurelie Athan, que matrescence começou a entrar mais sistematicamente na conversa da saúde mental perinatal.
Por que comparar com a adolescência importa
A comparação com a adolescência não é retórica. Ela diz algo sobre a natureza da transformação.
Na adolescência, o corpo muda, as relações mudam, a identidade anterior não cabe mais e a nova ainda não está formada. Há desorientação. Há conflito. Há ambivalência entre o que se era e o que se está tornando. A sociedade, ao menos em alguma medida, aceita que adolescentes sejam instáveis, confusos, contraditórios.
Com mães, a expectativa é outra. Espera-se que a transformação seja imediata e unidirecional, que o amor ao filho organize tudo e dissolva qualquer conflito interno. Quando isso não acontece, a mulher frequentemente interpreta sua própria ambivalência como sinal de que algo está errado com ela.
Matrescence nomeia essa ambivalência como parte normal do processo, não como falha.
O luto de si como parte do amor
Uma das experiências mais comuns e menos faladas da matrescence é o luto pela versão anterior de si.
Isso não significa arrependimento de ter tido filhos. Significa que a mulher que existia antes, com certos ritmos, certas liberdades, certas formas de estar no mundo, deixou de existir da mesma maneira. E essa perda é real. Pode coexistir com amor intenso pelo bebê, com gratidão, com alegria. Sentimentos não se excluem com essa facilidade.
O problema é que o luto de si na maternidade raramente encontra espaço. Não tem velório. Não tem nome socialmente reconhecido. A mulher que expressa saudade da vida anterior frequentemente é lida como ingrata, imatura ou como alguém que não queria mesmo ser mãe.
A clínica precisa sustentar que esse luto tem sentido, que nomear a perda não cancela o amor, mas que suprimir a perda acumula sofrimento.
Matrescence não é depressão pós-parto
Essa distinção importa clinicamente.
A depressão pós-parto é um diagnóstico clínico, com critérios específicos, que exige avaliação e, frequentemente, tratamento. Afeta entre 10% e 15% das mães no pós-parto imediato e pode se estender. O baby blues, aquela oscilação emocional dos primeiros dias após o parto, é transitório e está ligado às mudanças hormonais abruptas da puerpério.
Matrescence é outra coisa. É a transformação de identidade que acontece ao longo de um período mais amplo, não só nos primeiros dias, mas ao longo de meses, anos. Pode incluir momentos de confusão intensa, de luto, de ambivalência, de desorientação, sem que isso configure um quadro clínico que precise de tratamento.
A sobreposição existe. Uma mulher pode estar em pleno processo de matrescence e também desenvolver depressão pós-parto. Mas tratar toda ambivalência materna como sinal de psicopatologia é um erro clínico que apaga a normalidade da transformação.
O que o tabu social faz com esse processo
A sociedade tem um investimento significativo na figura da mãe feliz e realizada. Essa figura vende produtos, justifica escolhas e organiza expectativas familiares e culturais. A mãe que expressa confusão, ambivalência ou luto ameaça essa imagem.
O resultado é um tabu silencioso, mas eficaz. Mães aprendem rápido que certas experiências não são bem-vindas em certos contextos, com familiares, com pediatras, com grupos de mães. A pressão para encenar gratidão é constante.
Isso tem consequências clínicas. Mulheres chegam à terapia muitas vezes depois de anos carregando experiências da maternidade que nunca tiveram espaço para ser ditas. Às vezes chegam sem saber bem por quê, só sabem que se sentem presas, exaustas, ou que não se reconhecem mais.
Implicações para a escuta clínica
Conhecer o conceito de matrescence muda o que o clínico consegue escutar.
Quando uma mãe diz “não sei mais quem eu sou”, a psicóloga que conhece matrescence não corre para um diagnóstico. Ela reconhece uma experiência de transição de identidade que tem nome, que tem paralelos históricos e culturais, que é documentada e que não é patologia.
Isso não significa não avaliar. Significa que a primeira resposta não é classificar, mas reconhecer. Nomear o processo para a paciente muitas vezes tem um efeito imediato de alívio, não porque resolve a transformação, mas porque ela descobre que não é louca, não é ingrata, não é mãe ruim.
O espaço clínico também pode ser o único lugar onde a ambivalência tem permissão de existir sem julgamento. Onde a saudade de si não precisa ser justificada, minimizada ou transformada imediatamente em solução.
O que muda quando a clínica acolhe esse processo
Uma escuta clínica informada pela matrescence não trata a transformação como problema a resolver. Trata como processo a atravessar.
Isso implica fazer perguntas diferentes: não só “como você está se sentindo com o bebê”, mas “como você está se sentindo em relação a si mesma”. Não só rastrear sintomas depressivos, mas perguntar sobre a sensação de continuidade, se a mulher ainda se reconhece, o que ela sente que perdeu, o que eventualmente encontrou.
Implica também sustentar contradições sem pressa de integrá-las. Amar o filho e sentir saudade da vida anterior ao mesmo tempo. Estar grata pela maternidade e às vezes desejar um dia só para si. Essas contradições não precisam ser resolvidas para que a mulher esteja bem. Elas precisam ter espaço para existir.
Matrescence não tem resolução limpa. É um processo contínuo que vai se reorganizando ao longo dos anos da maternidade. O que a clínica pode oferecer é presença nesse processo, sem pressa de normalizar, sem pressa de diagnosticar, sem a expectativa silenciosa de que a mãe deveria estar bem o tempo todo.
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