Juliano Moreira fez reforma psiquiátrica antes da reforma
Juliano Moreira enfrentou racismo científico e defendeu uma psiquiatria mais humana no Brasil do início do século XX.
Juliano Moreira deveria aparecer mais na formação em saúde mental.
Médico psiquiatra brasileiro, negro, nascido poucos anos antes da abolição, ele atuou em um período em que teorias racistas tentavam explicar sofrimento psíquico pela miscigenação e pela degeneração racial.
Moreira enfrentou esse ambiente por dentro da ciência.
Ele não foi apenas um nome importante da psiquiatria brasileira. Foi uma figura central na disputa sobre que tipo de medicina mental o Brasil construiria no início do século XX: uma psiquiatria que naturalizava hierarquias raciais ou uma psiquiatria que localizava adoecimento também em condições sanitárias, educacionais e sociais.
Para começar pelo básico biográfico: Juliano Moreira nasceu em Salvador, em 1872, formou-se muito jovem pela Faculdade de Medicina da Bahia e construiu uma trajetória precoce e internacionalmente reconhecida, passando por dermatologia, sifiligrafia, neurologia e psiquiatria antes de assumir a direção do Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro.
Uma época racista com linguagem científica
No fim do século XIX e início do século XX, ideias racistas circulavam com prestígio acadêmico.
Não eram apenas opiniões de rua. Eram teorias, discursos médicos, classificações e políticas institucionais. A linguagem científica era usada para naturalizar desigualdade.
Nesse contexto, afirmar que adoecimento mental se relacionava a condições físicas, sociais, sanitárias e educacionais era uma disputa enorme.
O adversário intelectual dessa posição não era pequeno. Teses sobre degeneração, miscigenação e inferioridade racial apareciam em livros, faculdades, políticas públicas e formulações psiquiátricas. O que Juliano Moreira enfrentava não era um preconceito isolado, mas um consenso erudito de época.
Por isso sua atuação ganha peso histórico. Ele discordou de leituras que ligavam raça a doença mental de modo determinista e deslocou a discussão para fatores como sífilis, alcoolismo, verminoses, higiene, educação e condições de vida. Hoje isso pode soar elementar. Naquele momento, era uma tomada de posição dura contra o racismo científico.
Isso não significa que Juliano estivesse fora do seu tempo. Parte da literatura lembra, com razão, que ele também dialogou com noções eugênicas presentes no ambiente intelectual do período. Essa ambivalência não diminui sua importância; ela impede hagiografia e obriga leitura histórica mais séria.
Formação, carreira e prestígio
Juliano Moreira entrou muito cedo na Faculdade de Medicina da Bahia e se destacou por desempenho excepcional. Sua tese de formatura, “Sífilis maligna precoce”, já o projetou. Depois vieram concursos, produção científica, atividade docente e uma circulação rara para um médico brasileiro negro do período.
Ele estudou e viajou por centros europeus, acompanhou debates psiquiátricos internacionais, tornou-se membro de sociedades médicas no exterior e construiu uma reputação que lhe deu autoridade para intervir na organização da assistência psiquiátrica brasileira.
Esse ponto importa porque o racismo da época gostava de tratar intelectuais negros como exceção decorativa. Juliano Moreira não foi figura tolerada por gentileza. Foi respeitado porque tinha obra, formulação, articulação institucional e reconhecimento internacional.
Humanizar o cuidado
Juliano Moreira dirigiu o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, e ficou associado a reformas que buscavam reduzir práticas violentas e ampliar recursos de cuidado.
Entre as mudanças associadas a essa direção aparecem oficinas, biblioteca, música e crítica a grades e camisas de força.
Mesmo que a história institucional seja complexa, a direção é importante: tratar pessoas em sofrimento como humanas.
Esse talvez seja o ponto mais lembrado de sua trajetória. Ao assumir a direção em 1903, Juliano Moreira não propôs apenas ajustes administrativos. Ele reorganizou a ideia de assistência. Defendeu mudanças físicas na instituição, ampliou laboratórios, ensino, recursos terapêuticos e criticou formas abertas de brutalidade que marcavam os asilos.
Relatos históricos associam sua gestão à retirada de grades, à redução do uso de coletes e camisas de força, à criação de oficinas de trabalho e espaços culturais, à biblioteca, à escola de enfermagem e à ampliação de métodos diagnósticos. Nem tudo pode ser lido com romantização retrospectiva, mas há um eixo claro: a psiquiatria não deveria se resumir a contenção e depósito humano.
É por isso que muita gente o descreve como alguém que antecipou debates que só mais tarde ganhariam linguagem de reforma psiquiátrica. Evidentemente, não se trata da mesma reforma do fim do século XX. Mas existe parentesco ético na crítica ao tratamento meramente custodial.
Reforma institucional antes da reforma
Juliano Moreira também esteve ligado à reorganização mais ampla da assistência a alienados no Brasil, incluindo marcos legais e institucionais do início do século XX. Seu nome aparece associado à Lei Federal de Assistência a Alienados de 1903, à modernização do Hospital Nacional e à fundação ou fortalecimento de espaços científicos e associativos da psiquiatria brasileira.
Isso ajuda a entender por que sua obra não cabe num retrato individualista. Ele não foi só um médico brilhante atendendo pacientes. Foi formulador de campo, organizador institucional, professor informal de gerações de médicos e representante do Brasil em congressos internacionais.
Também por isso sua ausência em muitas formações é tão eloquente. Quando ele some, some junto a história de uma psiquiatria brasileira que não era mera cópia passiva da Europa.
Contra o racismo científico
Moreira é lembrado por se opor a explicações que atribuíam doença mental à raça ou à miscigenação.
Esse ponto ainda importa. A psicologia e a psiquiatria precisam revisar continuamente como seus conceitos podem carregar preconceitos de época.
Nem toda teoria antiga é neutra. Algumas nasceram para organizar hierarquias.
No Brasil, esse debate tem peso especial porque medicina, direito, criminologia e psiquiatria participaram ativamente da fabricação de imagens sobre perigo, degeneração, normalidade e civilização. Juliano Moreira foi uma das vozes que enfrentaram isso a partir de dentro do establishment científico.
O que ele mostra é que a crítica ao racismo científico não veio só de fora da ciência. Ela também foi feita por quem conhecia a ciência, dominava sua linguagem e recusava seu uso como arma para justificar inferiorização racial.
Por que isso importa para psicólogas
Juliano Moreira ajuda a lembrar que saúde mental no Brasil não é apenas importação de teoria europeia.
Tem história local, instituições locais, racismo local, resistência local e produção científica local.
Conhecer essa história amplia a clínica. Mostra que cuidado psicológico e psiquiátrico nunca estiveram separados de política, raça, classe e projeto de sociedade.
Também amplia a formação. Quando nomes como Juliano Moreira ficam fora da narrativa principal, a impressão é que pensamento sofisticado sempre veio de fora e que, aqui, restaria apenas aplicação. Isso empobrece não só a história, mas a capacidade de formular clínica situada.
Para a psicóloga de hoje, lembrar Juliano Moreira é lembrar que conceitos diagnósticos, critérios de normalidade e projetos de cuidado sempre foram atravessados por disputas sociais. Não existe neutralidade automática só porque um discurso parece técnico.
O risco de apagar complexidades
Também é importante não transformar personagens históricos em santos.
Todo nome precisa ser estudado em contexto, com contradições. Ainda assim, reconhecer Juliano Moreira é reconhecer uma disputa fundamental contra o racismo científico na formação da saúde mental brasileira.
Ele foi inovador e, ao mesmo tempo, homem do seu tempo. Combateu explicações raciais simplistas, mas não ficou completamente fora do vocabulário eugênico de sua época. Humanizou práticas institucionais, mas continuou atuando dentro do universo psiquiátrico asilar do início do século XX.
É justamente essa complexidade que o torna relevante para estudo sério. Personagem histórico útil não é o que sai limpo da pesquisa. É o que permite entender tensões reais entre avanço, limite, contexto e contradição.
Juliano Moreira lembra que humanizar o cuidado não é moda recente.
É uma luta antiga contra a redução de pessoas a diagnóstico, raça, perigo ou incômodo institucional.
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