Buber e a diferença entre ouvir e encontrar o outro — foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

Buber e a diferença entre ouvir e encontrar o outro

Existe uma diferença entre processar o que o paciente diz e realmente encontrá-lo como outro. Martin Buber nomeou essa diferença com precisão filosófica que ainda ressoa na clínica.

Dois terapeutas escutam o mesmo relato de um paciente sobre a morte do pai. Um toma notas mentais sobre as dinâmicas de apego, classifica o luto dentro de um espectro, avalia o risco de complicações. O outro é tocado. Não perde a capacidade técnica, mas algo no relato atravessa a membrana profissional e chega até ele como pessoa. Os dois estão presentes na sala. Apenas um está presente para o paciente. Martin Buber dedicou sua filosofia a descrever com precisão essa diferença.

A distinção fundamental de Buber

Martin Buber, filósofo austríaco do século XX, propôs que toda relação humana existe em uma de duas modalidades: Eu-Tu (Ich-Du) ou Eu-Isso (Ich-Es).

Na relação Eu-Isso, o outro é objeto de conhecimento, análise, uso ou avaliação. Não há depreciação nisso, é a modalidade de grande parte das relações funcionais do mundo. O médico que examina um paciente, o engenheiro que calcula uma estrutura, o professor que avalia uma prova. Essas são relações Eu-Isso legítimas e necessárias.

Na relação Eu-Tu, o outro não é objeto mas sujeito. Não se está diante de alguém para analisá-lo ou avaliá-lo, mas para encontrá-lo. O encontro genuíno, para Buber, é aquele em que ambos os lados são transformados pelo contato, em que o Eu que sai do encontro não é exatamente o mesmo que entrou.

Como isso aparece numa sessão

Imagine um paciente que descreve sua solidão com detalhes muito concretos: acorda às três da manhã, fica na cozinha, não liga a luz. A psicóloga que está numa relação Eu-Isso com ele ouve isso como dado clínico, perturbação do sono, isolamento, possível sintoma depressivo. Anota, categoriza, planeja intervenção.

A psicóloga que entra numa relação Eu-Tu com ele fica um momento nessa cozinha escura. Não porque seja ineficiente ou pouco rigoroso, mas porque esse instante de coabitação imaginativa é o que permite que o paciente se sinta encontrado, não apenas examinado.

A diferença não é emocional no sentido de sentimental. É ontológica, nos termos de Buber: é sobre que tipo de ser o paciente é para a psicóloga naquele momento. Objeto de tratamento, ou outro sujeito?

O risco permanente da tecnicização

A formação clínica, por necessidade, ensina a observar, categorizar, formular, intervir. Esses são instrumentos indispensáveis. Mas têm um efeito colateral que Buber antecipou: eles constroem uma camada de processamento entre o profissional e o outro. Uma camada de Eu-Isso.

O perigo não está nos instrumentos em si, está em quando eles se tornam a única forma de contato disponível. A psicóloga que só sabe estar em modo de avaliação está sempre a uma distância gerenciada do paciente. Pode ser muito competente tecnicamente. Mas o paciente, em algum nível que nem sempre consegue nomear, sente essa distância.

Buber diria: ele está sendo tratado, não encontrado.

O paradoxo do encontro na clínica

Aqui reside o que talvez seja a tensão mais honesta da prática clínica: o encontro genuíno no sentido de Buber pressupõe reciprocidade, ambos os lados presentes, ambos transformados. Mas a relação terapêutica não é simétrica. A psicóloga está ali em papel profissional. Há um contrato, um enquadre, uma direção definida pelo propósito do trabalho.

Como entrar numa relação Eu-Tu dentro de um formato Eu-Isso? Buber não ignorou essa tensão. Ele a chamou de “inclusão” (Einbeziehung): a capacidade de experienciar o lado do outro sem perder o próprio lado. Não é fusão, é a capacidade de habitar momentaneamente a perspectiva do outro enquanto se mantém ancorado na própria posição.

Isso é diferente de empatia no sentido técnico. Empatia pode ser executada de forma instrumental, uma técnica de espelhamento. Inclusão, nos termos de Buber, é uma postura de encontro. Não se aprende num manual.

O que o paciente sente quando é encontrado

Os pacientes raramente descrevem seus melhores momentos em terapia usando linguagem técnica. Não dizem “a psicóloga fez uma boa reformulação cognitiva” ou “a interpretação transferencial foi precisa”. Dizem coisas como: “senti que ele realmente me entendia”, “não precisei explicar tudo”, “saí diferente dali”.

Esses relatos apontam para experiências de encontro no sentido de Buber, momentos em que o paciente foi tratado não como caso a ser resolvido, mas como pessoa a ser encontrada. Esses momentos têm peso terapêutico que vai além do que qualquer técnica produz por si mesma.

Pesquisadores da aliança terapêutica como Bordin e, mais tarde, Norcross documentaram que a qualidade da relação terapêutica é um dos preditores mais robustos de resultado em psicoterapia, mais robusto, em muitos estudos, do que a escolha de abordagem técnica. Buber não tinha esses dados, mas sua filosofia descreve com precisão o que eles capturam.

Técnica e encontro: coexistência possível

Reconhecer a importância do encontro genuíno não é argumento contra a formação técnica. É argumento pela necessidade de que a técnica não se torne uma armadura.

A psicóloga que usa técnica sem encontro aplica procedimentos corretos numa relação instrumental. A psicóloga que encontra sem técnica pode ser caloroso mas descuidado, sem a estrutura necessária para sustentar o processo ao longo do tempo. A clínica que funciona tem os dois: rigor e presença, formação e abertura.

Buber disse que o Eu-Tu não pode ser sustentado indefinidamente, toda relação Eu-Tu tende a se tornar Eu-Isso com o tempo. O que a psicóloga pode cultivar é a capacidade de reconhecer quando está em modo de processamento puro e a disposição de, de tempos em tempos, baixar a guarda técnica o suficiente para que o encontro real aconteça.

Uma prática organizada como condição de presença

Estar presente para o paciente de forma genuína tem pré-condições práticas. A psicóloga que passa os últimos dez minutos de uma sessão pensando no prontuário que precisa preencher, no agendamento que esqueceu de confirmar e no pagamento que não entrou não está presente, está dividida.

A organização administrativa da prática não é separada da qualidade clínica. É condição dela. Quanto menos o funcionamento operacional da clínica exige atenção durante e entre as sessões, mais disponível a psicóloga está para o que Buber chamaria de encontro.

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