Rivotril e Sociedade do Cansaço
O que Byung-Chul Han e o uso de clonazepam têm em comum: a lógica do desempenho contínuo, o remédio como adaptação e o que a clínica pode oferecer além do alívio.
O Brasil é um dos maiores consumidores de benzodiazepínicos do mundo. O clonazepam, vendido como Rivotril, está entre os medicamentos mais prescritos no país. Esses são dados conhecidos. O que eles dizem sobre o contexto em que vivemos é menos discutido.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, publicou em 2010 “Sociedade do Cansaço”, um livro curto que se tornou referência para pensar o sofrimento contemporâneo. Não porque ofereça soluções, mas porque nomeia algo que muita gente sente sem conseguir articular.
A lógica do desempenho
Han descreve a sociedade contemporânea como orientada pelo desempenho. Não pela disciplina externa do poder que proíbe, mas pela positividade do poder que incentiva. “Você pode.” “Você consegue.” “Seu único limite é você mesmo.”
Essa inversão é sutil e devastadora. O sujeito do desempenho não se sente oprimido. Se sente livre. E porque se sente livre, culpa a si mesmo quando não produz o suficiente, quando não consegue descansar, quando o corpo pede parada e a mente insiste em continuar.
O resultado é um tipo de esgotamento que não tem agente externo identificável. Não é o chefe que explora: é você que não está dando o seu melhor. Não é o sistema que é insustentável: é você que precisa se otimizar.
Onde o remédio entra
Nesse contexto, o benzodiazepínico cumpre uma função específica: permite que o corpo continue funcionando apesar dos sinais de que deveria parar.
A ansiedade é um sinal. A insônia é um sinal. O corpo que não consegue descansar está comunicando algo sobre o estado do sistema: que o ritmo é alto demais, que o contexto é exigente demais, que algo precisa mudar.
O remédio reduz o sinal. Permite dormir, permite funcionar, permite continuar no mesmo ritmo. Isso tem valor, especialmente quando a alternativa imediata é o colapso.
Mas há um problema estrutural. Quando o medicamento reduz o sinal sem que o contexto que o gerou seja examinado, o que acontece é adaptação farmacológica ao ambiente. Não mudança do ambiente, não mudança da relação com ele.
A pessoa continua no mesmo ritmo, no mesmo contexto, com as mesmas exigências. Só que agora com suporte químico para tolerar o que antes era intolerável.
Anestesia como resposta social
Han usa o conceito de anestesia para descrever a resposta contemporânea ao sofrimento. Não elaborar, não transformar: anestesiar para continuar funcionando.
O Rivotril como peça desse sistema não é metáfora. É literal. E não é culpa de quem usa; é consequência de um contexto em que parar custa caro, em que vulnerabilidade é ineficiência, e em que o sistema de saúde muitas vezes oferece remédio mais rápido do que processo.
Isso não é argumento contra o medicamento. É argumento contra a ideia de que o medicamento basta.
A clínica como espaço de reposicionamento
Se a Sociedade do Cansaço produz sujeitos que não conseguem parar, a clínica psicológica é um dos poucos espaços onde parar ainda é possível, e até exigido.
A sessão não produz output. Não tem meta de desempenho. É um espaço onde o que está acontecendo pode ser examinado sem a pressão de já ter que estar resolvido.
Isso não é pouco. Em um contexto de positividade e exigência contínua, a clínica oferece o que raramente aparece: possibilidade de examinar a própria vida sem julgamento e sem urgência de resultado imediato.
Não é cura. É reposicionamento. Um espaço onde o paciente pode perguntar o que está gerando o que gerou, em vez de só tratar o sinal.
O que isso pede da clínica
A psicóloga que atende pacientes dentro dessa lógica precisa de uma perspectiva que vai além do sintoma. Saber que o paciente dorme com Rivotril é informação. Saber o que está impedindo que ele durma sem ele é diagnóstico.
Essa diferença não é óbvia na primeira sessão. Ela aparece no histórico, no padrão de como o paciente fala sobre trabalho, sobre descanso, sobre o que sente quando não está produzindo.
Quando a sociedade exige funcionamento contínuo, o remédio vira peça de adaptação antes de virar cuidado integral. A clínica que quer oferecer cuidado integral precisa ver o paciente inteiro, incluindo o contexto que o trouxe ao consultório.
A Corpora permite que o histórico do paciente seja registrado com continuidade: não só os sintomas de hoje, mas a evolução ao longo das sessões. Essa visão longitudinal é o que permite identificar padrões que uma sessão isolada não revela. É parte do que separa uma clínica que acompanha de uma que só atende. Conheça: Corpora
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