Pessoa usando smartphone em ambiente interno — foto ilustrativa (Pexels)
Foto: Meruyert Gonullu / Pexels
IA e Tecnologia

Quem não é visto não é lembrado: o fenômeno da exposição on-line

Na cibercultura, ser visto passou a configurar uma nova demanda subjetiva.

Na cibercultura, ser visto passou a configurar uma nova demanda subjetiva. O fato de o próprio sujeito se tornar agente da sua exposição frequentemente se associa a uma ideia de liberdade. No entanto, o filósofo Byung-Chul Han ressalta que é justamente esse sentimento de liberdade que sustenta novas formas de dominação.

Afinal, mesmo estando constantemente presente nas redes sociais, produzindo conteúdos e realizando postagens diárias, nada garante que alguém será efetivamente visto no ambiente on-line. É nesse cenário que se fortalece o fenômeno fear of missing out (FoMO), difundido socialmente a partir da década de 2010 com a expansão das mídias digitais. O termo refere-se ao medo de estar perdendo algo ao não permanecer conectado, envolvendo sentimentos de ansiedade relacionados não apenas à exclusão, mas também ao medo de não pertencer e de não ser percebido socialmente.

Ao mesmo tempo, ser visto também possui seus contrapontos. Os riscos envolvidos na aceitação dos termos de uso das plataformas digitais, muitas vezes sem plena consciência do que está sendo autorizado, foram ilustrados no primeiro episódio da sexta temporada da série Black Mirror (2023), reconhecida por abordar criticamente as relações humanas mediadas por tecnologias disruptivas.

No episódio intitulado “A Joan é péssima”, uma mulher comum vê sua vida ser transformada em conteúdo e ir parar dentro de uma plataforma de streaming. A exposição de sua intimidade desencadeia inúmeros prejuízos, como demissão, rompimentos afetivos e intenso sofrimento emocional. Contudo, ela descobre que, ao aceitar os termos de uso da plataforma, havia concedido acesso irrestrito aos seus dados pessoais, concretizando processos contemporâneos de digitalização e dataficação da vida.

Na sociedade da informação, nossas vidas passaram a ser traduzidas em dados. Informações pessoais transformaram-se em ativos valiosos, de modo que permitir o acesso aos próprios dados representa, em certa medida, permitir o acesso à própria vida. Ainda assim, para muitos, isso parece um preço aceitável diante da promessa de visibilidade, reconhecimento e pertencimento.

Como consequência, observa-se o avanço do processo de espetacularização do “eu”, no qual personalidades e vidas privadas tornam-se performances públicas contínuas. Em muitos casos, faz-se de tudo para ser visto, inclusive em áreas relacionadas ao cuidado e à saúde mental. Em sua obra O Show do Eu, Paula Sibilia discute justamente o fenômeno da exibição da intimidade e questiona como devemos compreender esses novos formatos de expressão e comunicação na era digital.

Como aponta a autora:

“Todas as cenas da vida privada, essa infinidade de versões de você e eu que agitam as telas interconectadas pela rede mundial de computadores, mostram a vida de seus autores ou são obras de arte produzidas pelos novos artistas da era digital? É possível que sejam, ao mesmo tempo, vidas e obras?” (SIBILIA, 2008).

Associado a essa lógica da exposição da intimidade, Byung-Chul Han (2022) destaca que a liberdade de postar, conectar-se e comunicar-se coincide paradoxalmente com mecanismos sofisticados de vigilância e controle. Quanto mais nos expomos, mais eficiente se torna a coleta de dados, o monitoramento e a previsibilidade dos nossos comportamentos.

Nesse sentido, os modelos técnicos intrínsecos às plataformas digitais não operam apenas como ferramentas neutras. Eles atravessam nossos afetos, emoções, modos de expressão, formas de pertencimento e até mesmo a construção da identidade. Impactam a maneira como sentimos, nos relacionamos, consumimos, trabalhamos e percebemos a nós mesmos.

Diante disso, torna-se necessário questionar: quem está pensando criticamente sobre esses impactos? Quem está refletindo sobre os efeitos subjetivos da hiperexposição, da vigilância e da economia da atenção? Quem está pensando na economia do humano?

Talvez seja justamente nesse ponto que a Psicologia encontre um de seus grandes desafios na Cibercultura: compreender como os fenômenos digitais atravessam a constituição subjetiva, os vínculos e os sofrimentos psíquicos da atualidade. Em uma sociedade marcada pela hiperconexão, pela performance constante e pela mercantilização da atenção, pensar saúde mental também implica pensar criticamente as tecnologias e os modos de existência produzidos por elas.

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