Como criar uma pseudociência em 9 passos — foto ilustrativa (Pexels)
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Psicologia

Como criar uma pseudociência em 9 passos

Uma sátira acadêmica sobre como pseudociências criam promessas, falsa autoridade, depoimentos, inimigos e ataques a críticos.

Esse artigo é uma sátira acadêmica.

A ciência tem muita credibilidade, porém nem sempre a ciência concorda com sua opinião. Não chore, nem mude de opinião, crie uma Pseudociência!

Você quer criar uma pseudociência. Não uma teoria robusta, não uma prática verificável, não uma técnica responsável. Uma pseudociência mesmo: dessas que parecem profundas, vendem certeza e resistem a qualquer crítica.

Esses passos foram descritos pelo psicólogo Anthony R. Pratkanis em How to Sell a Pseudoscience, publicado na Skeptical Inquirer, v. 19, n. 4, p. 19-25, em 1995.

Passo 1: Crie um fantasma

O fantasma é o objetivo que parece real, desejável e alcançável. Ele precisa ter aparência de realidade: encontrar a felicidade plena, conquistar sucesso absoluto, curar tudo, desbloquear potencial, se tornar a melhor versão de si.

Mas o ideal é que esse objetivo nunca tenha critério claro de chegada.

Se a pessoa não alcança, o problema nunca é a promessa. É a entrega dela, a vibração dela, a resistência dela, o medo dela, a falta de compromisso dela.

Passo 2: Hora do casamento

Aqui entra a armadilha do compromisso gradual.

A pessoa começa com pouco: uma aula gratuita, um teste, um e-book, um diagnóstico informal, um curso barato, uma pequena aposta. Depois vem a próxima etapa. Depois a avançada. Depois a mentoria. Depois o grupo fechado.

Quanto mais ela investe tempo, dinheiro e identidade, mais difícil fica admitir que talvez tenha errado.

É a lógica vista em pirâmides financeiras e em muitos cursos de autoconhecimento: primeiro o custo parece baixo; depois, para “recuperar” ou “evoluir”, a pessoa precisa investir mais e defender o método.

Passo 3: Fabrique sua credibilidade

Pseudociência precisa parecer confiável antes de ser questionada.

Para isso, fabrica autoridade: instituto próprio, certificado vistoso, doutorado honorário sem valor acadêmico, congresso de fachada, publicação em revista sem revisão séria, linguagem técnica vazia.

O truque não é provar. É criar cenário de prova.

Jargões ajudam: “ativa o DNA”, “reorganiza telômeros”, “limpa toxinas emocionais”, “reprograma frequências”. Parece ciência, mas pode ser apenas palavra difícil empilhada.

Também entram celebridades, depoimentos e veículos que parecem jornalísticos, mas pertencem ao próprio ecossistema da promessa.

Passo 4: Amo muito tudo isso

Chega a hora do slogan.

O grupo precisa de uma frase, um nome, uma identidade. Algo fácil de repetir e emocionalmente significativo, mesmo que seja conceitualmente fraco.

“Geração detox”, “despertos”, “iluminados”, “os que cuidam da saúde de verdade”, “os que não aceitam o sistema”. O slogan separa quem pertence de quem questiona.

A partir daí, a pessoa não está apenas defendendo uma técnica. Está defendendo um grupo do qual faz parte.

Passo 5: Dono de si mesmo

Depois de algum tempo, a própria pessoa passa a convencer a si mesma.

Ela dá depoimento, explica para amigos, defende o método em comentários e repete a história de transformação. Quanto mais fala, mais se compromete com a crença.

Depoimentos podem ser legítimos. O problema é quando viram prova central. “Funcionou comigo” passa a valer mais do que avaliação, comparação, acompanhamento e limite.

Em suplementos, terapias alternativas e gurus de todo tipo, o depoimento tem dupla função: convencer novos seguidores e prender quem já testemunhou publicamente.

Passo 6: O sobrinho do meu tio…

Toda pseudociência precisa de uma boa história.

Falsa ou verdadeira, completa ou distorcida, ela precisa ser emocionante. Um caso isolado com rosto, drama e reviravolta costuma chamar mais atenção do que uma estatística sem personagem.

“O menino que se curou com dieta alcalina” pesa mais no feed do que milhões de casos em que isso não aconteceu. Relatos de abdução parecem mais vivos do que estudos sobre memória, sugestão e percepção.

Histórias importam. Na clínica, inclusive. Mas história não é o mesmo que evidência.

Passo 7: Eu enfrento Eles

Agora é preciso criar um inimigo.

O inimigo pode ser a indústria farmacêutica, os céticos, a universidade, o conselho profissional, a mídia, “o sistema”, “eles”. O ponto não é discutir interesses reais, que podem existir. O ponto é transformar qualquer crítica em conspiração.

“A indústria esconde a verdade” pode virar uma forma de proteger qualquer tratamento alternativo de avaliação séria.

“Você precisa se desintoxicar” funciona porque “toxina” é vaga o bastante para vender quase qualquer coisa.

Passo 8: A voz do povo

Aqui entram heurísticas e crenças populares.

As pessoas usam atalhos para decidir rápido. Pseudociência explora esses atalhos:

  • se custa caro, deve ser bom;
  • se é natural, é melhor;
  • se é antigo, é mais sábio;
  • se muita gente usa, deve funcionar;
  • se tem palavras difíceis, deve ser profundo.

Cada frase parece intuitiva. Nenhuma substitui evidência.

“Natural” também pode ser tóxico. “Antigo” também pode ser violento. “Caro” também pode ser golpe. “Popular” também pode estar errado.

Passo 9: O ataque é a melhor defesa

No último passo, a pseudociência para de responder e começa a atacar.

Em vez de discutir método, desacredita o crítico. O cientista “trabalha para grandes corporações”. Os céticos “são pagos”. O conselho “tem medo da inovação”. A universidade “não entende energia”. A imprensa “quer esconder a verdade”.

Às vezes conflitos de interesse existem e devem ser investigados. Mas acusação sem evidência não responde argumento.

O objetivo do ataque é mudar o foco: sair da pergunta “isso funciona?” para “quem é você para perguntar?”.

Como usar esse checklist

Essa sátira não é para ser seguida. É para ser reconhecida.

Na saúde mental, promessas falsas não são apenas irritantes. Elas podem atrasar cuidado, aumentar culpa, afastar tratamento adequado e colocar pessoas vulneráveis em risco.

Antes de aceitar uma promessa, pergunte:

  • qual é o critério claro de melhora?
  • há evidência independente?
  • a técnica admite limite?
  • quem discorda pode discordar sem ser atacado?
  • o método funciona sem depender de depoimento dramático?
  • existe encaminhamento quando não é indicado?

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